Convidamos você a conhecer o que a cidade que abriga a Riviera de São Lourenço tem a oferecer. Seu entorno pode surpreender
Por Mayumi Kitamura
Patrimônio de Bertioga, a Riviera de São Lourenço é privilegiada também por sua localização, já que a cidade dispõe de uma natureza pulsante, o que lhe confere ar fresco e puro, além de muitas possibilidades para quem gosta de se aventurar por trilhas e passeios com banhos refrescantes em rios e cachoeiras.
Para os adeptos da contemplação e da cultura, uma aventura pela história na fortaleza mais antiga do Brasil, o Forte São João. O equipamento, concorrente ao título de patrimônio da humanidade junto ao ICOMOS (sigla em inglês para o Conselho Internacional de Monumentos e Sítios), vinculado à Unesco, abriga vários artefatos da época quinhentista que registram seu passado e o do Brasil colonial.
Sozinho, com amigos ou em família, há opções diversas para que todos curtam os passeios disponíveis.
As matas de Bertioga abrigam muitas trilhas e revelam belezas diversas. Em meio a elas, sente-se a sensação de entrar em outro universo, já que até o ar é diferente. Aliado a isso, os sons se tornam mais profundos e originais - uma grande diversidade de pássaros compõe uma sinfonia única e exclusiva.
É preciso atenção para não perder nenhum detalhe importante e aproveitar a experiência ao máximo, como pontua o presidente da Associação Bertioguense de Ecoturismo (Abeco), o biólogo e monitor ambiental Raphael Roberto de Castro Rodrigues: “Quando o visitante sai da trilha, leva junto com ele muitas sensações, novos conhecimentos e a alegria de vivenciar uma experiência única em meio à natureza”.
Para conhecer aspectos desses tesouros naturais, os visitantes podem fazer um passeio monitorado (com agendamento prévio) nos Parques Estaduais da Restinga de Bertioga (Perb) e da Serra do Mar (Pesm). Ambos possuem elevado grau de preservação; o Perb, por exemplo, abriga 98% dos remanescentes de restinga de toda a Baixada Santista.
Sua área protege um grande número de espécies de bromélias e orquídeas, e também de animais ameaçados de extinção, como a onça-parda (puma concolor), a anta (tapirus terrestris), o queixada (tayassu pecari) e a jacutinga (aburria jacutinga). Não é raro deparar-se com pegadas destes animais nas trilhas. Aliado ao Pesm, o território forma um corredor ecológico e de biodiversidade entre os ambientes terrestre e marinho-costeiro.
Tanto o Perb quanto o Pesm encontram-se em elevado estágio de regeneração, com vários locais que preservam características originais. “É possível observar a grande biodiversidade de plantas e animais e suas interações, os ecossistemas e as características que os compõem, as comunidades que vivem no entorno dos parques, as paisagens, os riachos e cachoeiras, entre tantas outras formas de expressão da natureza que estão plenamente protegidas por estas importantes unidades de conservação, afirma Raphael.”
As trilhas atualmente disponíveis para visitação possuem diferentes graus de dificuldade. São elas: Trilha D´água (extensão: de 2km a 3km / dificuldade - fácil); Trilha de Itaguaré (extensão: de 2km a 3km / dificuldade - fácil); Trilha de Guaratuba
extensão: de 8km a 9km / dificuldade - moderada); Trilha São Lourenço - Família Pinto (extensão: de 4km a 5km / dificuldade - moderada); Trilha do Complexo Vale Verde (extensão: de 2km a 3km / dificuldade - moderada); Complexo de Trilhas do Rio Itapanhaú (extensão: de 17km a 18km / dificuldade - moderada).
Os interessados nos passeios precisam entrar em contato previamente com a Associação Bertioguense de Ecoturismo (Abeco) pelo telefone (13) 99697 7723 ou com a Associação de Monitores Locais de Bertioga (Amolb), pelo (13) 98206 7462, que também agendam pelos emails abeco2018@gmail.com e monitores_bertioga@hotmail.com.
O controle de acesso às trilhas é realizado pela equipe de gestão dos Parques Estaduais, equipe de vigilância, com o apoio das duas associações.
Outro atrativo do Parque Estadual da Restinga de Bertioga, o Perb, é o rio Jaguareguava ou, se buscarmos uma tradução livre de seu significado, “o local onde a onça bebe água”, do tupi antigo. De águas calmas e cristalinas, o passeio segue um único curso de 3km, e é considerado tão seguro que crianças, idosos ou pessoas com qualquer tipo de deficiência podem se aventurar.
Uma das empresas que oferecem essa experiência é a Jaguareguava Ecoturismo. Ela conta com diferentes tipos de embarcações como caiaques, stand ups, canoas canadenses - que comportam até quatro pessoas-, e catamarãs adaptados para pessoas com mobilidade reduzida.
Bruno Guazzelli, monitor ambiental responsável pela empresa, comenta sobre a acessibilidade do passeio, inclusive nos dias nublados. “O grau de dificuldade é quase zero. Considerado nível 1. Qualquer pessoa inexperiente consegue. A questão do sol é sempre importante, mas muitas pessoas também curtem remar na chuva. O que importa é não ter raios!”, destacou.
A preparação para a atividade é garantida pela agência, no intuito de proporcionar autonomia no esporte mesmo para quem nunca teve contato com a canoagem. “A maioria que vem nunca remou na vida e sai daqui feliz, não só pelo maravilhoso passeio, mas por ter aprendido um esporte que nunca havia praticado antes. Isso realmente não tem preço, principalmente com idosos e PCD's”.
Mesmo para quem é da cidade, o programa propicia uma experiência quase indescritível, principalmente, pelas sensações causadas pelo contato com a natureza em seu estado puro. Este é o caso, por exemplo, da educadora física Giovanna Harder dos Santos Marques, de 24 anos, que sequer lembra a primeira vez que remou na vida. “O rio Jaguareguava é um lugar que eu amo muito ir. Normalmente vou em família para curtir o momento e relaxar. Tudo é muito encantador e eu saio de lá com uma paz incrível”, revelou.
Ela destaca a rica vegetação e os animais que sempre brindam o trajeto de canoa. “Esse passeio é incrível de fazer e eu recomendo para todos, claro que respeitando a natureza o tempo todo!”
Os atributos do local permitem que também seja um ótimo destino para os observadores de aves, tanto, que existe até uma organização especial para atender a este público. Com um monitor embarcado, os fotógrafos da natureza conseguem parar onde for necessário para garantir seus cliques, conforme a aparição das aves.
Além de flutuar pelas águas do Jaguareguava e se encantar com a rica fauna e flora, a saída proporciona ao visitante a passagem por mais de uma dezena de ‘prainhas’ de areias claras na maré baixa, sendo este número reduzido a seis na maré alta. Outras atrações proporcionadas pela variação das marés são o banho de argila e as areias flutuantes, revelou Bruno Guazzelli. Ele comenta que o fenômeno “ocorre nas marés enchentes por causa da diferença de densidade da água doce que desce das cachoeiras e da água salgada, que sobe do mar”.
Animou para remar pelo Jaguareguava? Mais informações sobre a atividade podem ser obtidas com a Jaguareguava Ecoturismo, pelo Whatsapp (11) 94702 0906 e pelo telefone (11) 94700 3923.
Forte São João
De terça-feira a domingo - das 9h às 18 horas
“Na quebra da praia, olhando o mar e as águas sombrias do rio, entestando o maciço montanhoso da ilha de Santo Amaro, o forte de São Tiago é uma expressão magnífica. No primeiro século defendeu Santos dos Tamoios que vindo do mar, desejariam atacar a vila pelas costas. Hoje é simplesmente gracioso. As suas pedras enérgicas, a sua plataforma de vasta perspectiva, as suas vigias pueris, são duma elegância arquitetônica impecável”. Estas foram as palavras do escritor Mário de Andrade, em correspondência com Rodrigo Mello Franco de Andrade, em carta datada de 1937.
Na época, a fortaleza, conhecida também por Forte de São Tiago, não havia sido tombada, e muito faltava para ser restaurado para que se tornasse o patrimônio hoje preservado e tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) como Patrimônio Nacional. Parceria recente com o Sesc Bertioga resultou em nova reforma e restauro de suas estruturas, além de inclusão de uma nova exposição, obras que o preparam melhor para sua candidatura a Patrimônio Mundial.
Visitantes encontram um acervo com quadros, armadura e canhões, além de uma mostra moderna e interativa, com jogos, cenografias, painéis, ilustrações e objetos que proporcionam o máximo de interação com os ambientes. A proposta é que o público faça uma imersão na história do forte mais antigo do país.
Quem assina a exposição é a museóloga Marília Bonas Conte. Especialista em mostras históricas, ela é diretora artística do Museu da Língua Portuguesa, foi curadora do Museu do Café de Santos e responsável pela mostra do Memorial do Imigrante de São Paulo. A curadoria contou também com a filósofa e professora indígena Cristine Takuá, da Aldeia Rio Silveiras.
O secretário de Turismo, Esporte e Cultura de Bertioga Ney Carlos da Rocha acredita que esta nova exposição irá colaborar para a conquista da chancela da Unesco, proporcionando maior visibilidade, inclusive internacional. “O Forte São João passa a ser, além de museu, o primeiro centro de interpretações e memórias do Brasil, respeitando diversas visões da história”, comentou.
A fortaleza de Bertioga surpreende por ser a mais conservada de todo o país, mantendo características originais, apesar da sua construção em alvenaria, pedra e cal datada da época de 1500. Curiosamente, também teria sido utilizado óleo de baleia na construção, possivelmente facilitado porque a cidade abrigava uma das três armações baleeiras do território paulista - locais em que eram estruturadas a pesca ou caça às baleias, assim como o processamento de seus produtos. O óleo, segundo historiadores, seria comumente utilizado como impermeabilizante nas construções do período colonial, principalmente naquelas em contato com a água.
Neste período de muitos conflitos, ela atuou como equipamento estratégico na defesa e vigilância militar da Coroa Portuguesa. No entanto, segundo documentos históricos, havia também a preocupação com ataques e combates entre colonizadores e os povos nativos.
Desde o início de sua construção, a fortificação passou por várias modificações. As obras definitivas do então chamado Fortim de São Tiago foram concluídas somente em 1710. A planta original apresentava o formato de um polígono retangular com guaritas e vértices. A fortificação começou a ser reformada em 1765, quando recebeu o nome de Forte São João, devido à reedificação de sua capela em homenagem ao santo.
O Forte São João abrigou personagens importantes da história do país nos primeiros anos da colonização do litoral paulista. Entre eles, em 1563, os jesuítas Manoel da Nóbrega e José de Anchieta estiveram no local poucos dias antes de irem à Ubatuba na tentativa de apaziguar os índios da Confederação dos Tamoios.
Uma parte desta história, os visitantes podem conhecer já no entorno do Forte, no Parque dos Tupiniquins. O local abriga a única estátua do país do cacique tupinambá, o Cunhambebe. Ela relembra a sua vinda, em 22 de setembro de 1563, com o então padre José de Anchieta, para selar a paz entre colonos e nativos. Também de seus arredores teria partido Estácio de Sá e sua esquadra, em 1565, para combater os franceses e fundar a cidade do Rio de Janeiro.
Este antigo núcleo de importância militar estendeu-se também para o outro lado da barra, em Guarujá, onde, em meados do século XVI, foi fundada a capela de Santo Antônio de Guaibê e, mais à frente, abrigaria o Forte de São Felipe, ou São Luís; no entanto, sua construção não foi concluída. As ruínas da capela ainda existem no local e são visitadas durante as encenações em homenagem a José de Anchieta, em junho. Isso porque, ali teria ocorrido o chamado Milagre das Luzes, visto do Forte São João quando da sua passagem por Bertioga.
Entre os principais relatos da época colonial sobre a área estão os do artilheiro alemão Hans Staden. Conhecedor de armas, ele foi convidado a cuidar do Forte São Felipe, onde teria habitado e participado de sua construção. Em suas histórias, ele conta sobre sua captura feita pelos tupinambás, entre os quais ficou prisioneiro por aproximadamente nove meses.